sexta-feira, 28 de março de 2014

Aperitivo do CD "3,1415..."

Luiz Pinheiro


      imagem: reprodução










"Brejo" é a canção do meu novo CD "3,1415..." que escolhi para apresentar a vocês aqui no meu blog.

Fala de uma pessoa desiludida, mas que trata a desilusão com certo humor. Seu coração está em um frigobar, mas seu corpo está fervendo na pista. 

Embora no meio de muita gente, ainda não quer encontrar ninguém. Será?

Abrir o CD com uma música que diz "estou na pista" também é uma maneira de anunciar que estou chegando com um trabalho novo.


Se joguem, divirtam-se e comentem.


                                
                       

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

3.1415...Poema, forma e conteúdo

Luiz Pinheiro


                                               
 




            
            Se me perguntarem o que prefiro: um poema sem conteúdo, mas com forma, ou um poema com conteúdo, mas sem forma, opto pelo primeiro, visto que não considero o segundo um poema.
      
      Poema é essencialmente forma. Diz respeito ao som das palavras, sua disposição, aquilo que apenas pode ser dito da maneira como é escrito. Todo o resto são versos aleatórios ou meros pensamentos. Claro que se um poema consegue reunir bom conteúdo e boa forma, então é perfeito.

      Gosto de uma de minhas músicas, feita em parceria com a Leila Romero, chamada “Barra Macaco”. Ela é pura forma e é gostoso ouvi-la. Embora exista quem encontre algum conteúdo ali, isso é por conta da subjetividade do ouvinte. É interessante que possamos gostar de uma canção em que a letra não diga nada. Acho isso muito natural, pois, muitas pessoas que não sabem falar Inglês, adoram canções cantadas nessa língua. O que importa, no caso, é a sonoridade da melodia e da letra. Se é para abolir conteúdo, que se faça com estilo, elegantemente.

      Acho bacana temas sociais em canções, mas não gosto muito quando são contadas historinhas como se as letras fossem prosa. E quando são em forma de versos, que sejam ditos com inspiração e estrutura poética, não apenas como mensagens educativas ou políticas de estética duvidosa.

         Arte pela arte em primeiro lugar. Mesmo se num “interjogo” com temas sociais.

      Este novo CD “3,1415...” é diferente do primeiro, chamado “Decompor”, já que aborda mais temas sociais. Faz referência a tráfico, ao uso de burcas, a moradores de rua, a ambientalismo, fundamentalismo, moralismo e, lógico, amor e desamor. Mas, ao falar desses assuntos o faço com uma perspectiva muito própria, filosófica, longe dos jargões atuais, os quais abomino. Procuro uma visão que perpasse tais temas de forma “oblíqua”. Aliás, esta palavra daria um lindo nome de canção. Ou até subtítulo para o disco, pois também se refere a um termo da área da Matemática, a Geometria.

      Quando estudante, eu era muito bom em Matemática. Quem me apelidou Pi foi uma professora da área. Hoje não tenho quase nenhum interesse em Exatas. Da Matemática fui para a área de Biológicas cursar Medicina e, logo após, também cursei Psicanálise, já bem distante das duas. Atualmente, me interesso mais por Humanas, incluindo o fazer artístico.

      Sendo assim, gosto dos adjetivos usados na definição do símbolo matemático de letra grega Pi (3,1415...), porque têm relação direta com traços humanos: “inexato, aproximado, infinito, irracional, transcendente”. Ao musicar esse tema, consegui unir meus primeiros interesses de vida aos atuais. Acho esse novo disco mais autoral que os anteriores. Não que aqueles não o fossem, porém, neste trabalho, imprimo minhas digitais de modo mais nítido.

      A realização de “3,1415...” conta com a direção de Valter Gomes, que também é o meu psicanalista musical, pois consegue interpretar minhas intenções e torná-las realidades sonoras. Fazemos todos os arranjos juntos, ponderando cada nota empregada e que tipos de instrumentos iremos usar. É um processo experimental no qual harmonizamos elementos acústicos e eletrônicos de forma contemporânea.
Uma das novidades deste CD é minha voz soar mais rasgada em certas canções. A outra é Valter levar o som de sua guitarra por técnicas e caminhos inéditos. Por estas e outras, considero-me um privilegiado por contar com sua amizade e parceria. Ele é de um talento enorme e de humildade ímpar.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Nômade Urbano por Emerson Lopes

Amigos, segue texto do jornalista Emerson Lopes, em que comenta a minha canção "Nômade Urbano", incluída no meu novo CD, com participação de Jorge Mautner. A foto é minha. O modelo é o Alegria.






                                                         
   


São Paulo. 2014. Um verão de dias com mais de 30 graus traz cores quentes à cidade que dizem ser cinza. Esqueçam. Cores no céu, cores nos carros, muros pichados ou grafitados. Cores nas roupas da multidão, que anda pra lá e pra cá, a 24 por 7.Pura poluição visual.

Mas uma poluição visual que gera arte. Arte na qual até a fuligem altera os tons da luz da cidade-tela, às vezes sem ar respirável. Ar-te.

Multidão. Multidões. Gente, gente, gente, Entre eles,moradores de rua que pedem a Mil que não lhes dão um tostão. "Tudo bem, amanhã, aqui vocês ainda me encontrarão. Minha cantiga, quase repente, não desaparece de repente".

São sons e mais sons, Todos os gêneros são ouvidos ao mesmo tempo nos cruzamentos paulistanos. Soul, samba, funk, rap, rock, forró, sertanejo, pop, passos apressados da moça de tailleur, buzinas, freadas bruscas, altos e baixos falantes nos seus celulares.Tudo ao mesmo tempo.

Crossing-over sonoro que vai além do que Caetano e tantos outros perceberam nas esquinas da megacidade, outrora batizada "Sampa". Pois este liquidificador de não sei quantos mil decibéis foi atualizado na letra e na música de Luiz Pinheiro.

Presente no novo CD "3.1415...", a canção "Nômade Urbano", do compositor e poeta Luiz Pinheiro, transforma a disfunção sonora que é a trilha do povo de SP, atualizando Sampa como um novo organismo vivo.

A cidade vista pelos olhos de um morador de rua é poesia que destrói as convenções-limite de zonas norte, sul,leste, oeste. Tudo é central na São Paulo desse início de milênio. Mega corpo de células urbanas, nômades e sem nomes.


Emerson Lopes da Silva





sábado, 28 de dezembro de 2013

Caçador de mariposas










                                                           




Wellington de Melo pegou-me distraído e de jeito, quando na casa de um amigo, lancei mão de seu livro. Encontrava-se na sala, sobre a mesa, entre tantos outros. Pescaria certeira, vi-me diante de algo tão requintado e simples, que fui só arrepio.
Não é um livro de poesia, é um objeto poético, que respiramos e que roça nossa pele. Desde a confecção da capa, artesanato feito de amor, até a beleza de suas frases encantadas, em conteúdo e forma, seu trabalho consegue ser "flocos de céu" e "pedras no chão caídas". Fez-me lembrar de uma letra minha para a canção de Hermelino Neder, chamada Antro, que diz : "Do profundo o abismo vai brotar minha flor, no mais negro escuro vou buscar minha luz".
 O autor traz luz para a escuridão que vem invadindo as relações humanas e nos mostra a importância do sonho, quando nos deparamos com o diferente e o desconhecido. Abordando o autismo, remete-nos à superficialidade que costuma habitar corações e mentes e nos brinda com a potência de um amor que rompe a moldura do quadro e se estende "infinito, imenso monolito", como diz a canção, na arquitetura do ser e do saber. E tudo num tempo de delicadeza admirável! "O caçador de mariposas" condensa psicologia, literatura, sabedoria e, essencialmente, humanidade. Leitura imprescindível.



sábado, 3 de agosto de 2013

O Artista

            Amigos, estou postando a letra de um funk para o novo CD. Terá participação especial de Ivam Cabral, nessa faixa.


                                                                     
                                                       
                                                                           imagem: reprodução



O artista
(Luiz Pinheiro)
                    Para Ivam Cabral
                            
O artista está sangrando
E sorrindo pro Brasil
É pólen de flor
Em bala de fuzil
Estrangeiro natural
Turista na própria terra
Vê de fora o que de dentro
A natureza oculta berra
Nunca ele se satisfaz
Quando acerta ou quando erra
Ele fala da paz
E se joga na guerra

O artista
Não despista
Não se acovarda
Nem se acanalha
Mete a cara
Expõe a tara
Mata a cobra
E mostra a vara

O artista está sangrando
E sorrindo pro Brasil
É pólen de flor
Em bala de fuzil
Não se prende, não imita
Não limita, está no cio
Se impregnando do que vê
E transformando o que ouviu
Feito de carne e osso
Etéreo como morfina
Tem leveza de maconha
E fúria de cocaína.


segunda-feira, 22 de abril de 2013

Videobook Luiz Pinheiro

      Segue um videobook sobre meu trabalho. Constam o show "Decantar", onde interpreto canções de compositores consagrados da MPB, o "Decompor", no qual interpreto minhas canções, de parceiros e faço releituras de outros compositores, além de um making off.

                                                      


                                                      


sexta-feira, 8 de março de 2013

O ar mais próximo e outras matérias

Waltercio Caldas: surpresa, estranhamento e prazer estético. O vazio como motor da representação.


                                                   
Luiz Pinheiro

            
             Fui ver a exposição de Waltercio Caldas, na Pinacoteca do Estado, intitulada “O ar mais próximo e outras matérias”. Não entendo nada de artes plásticas, mas gosto muito, como leigo, de apreciá-las. Se esse tipo de arte dependesse somente de entendedores para admirá-las, os museus estariam quase vazios.
     
      Logo ao entrar na sala fui tomado de um sentimento de surpresa, seguido de estranhamento, acompanhado de um prazer indiferenciado. Seria a vivência da beleza, ali presente, a causadora desse sentimento? A arte tem o dom de nos botar em contato com o belo. E belo não quer dizer bonito ou feio. É o resultado de uma experiência estética única, que pode inverter conceitos, alterar realidades ou subverter a ordem estabelecida.
        
      Waltercio nos oferece objetos extremamente leves, pontuados, em menor escala, com outros de maior peso e densidade, como pedra ou granito, preenchidos de vazio -muito vazio- transparência, brilho de metal fino, imagens espelhadas, consistências de água.
      
      Não há como se mostrar insensível àquilo. Somos tomados de um sentimento de difícil definição. Sua obra respira, flutua, movimenta-se, ainda que parada. Fala, em silêncio, pela forma, pela textura dos objetos. Parece nos fazer perguntas sem querer respostas . A meu ver, é essa a intenção desse artista: levar-nos para aquele lugar em que só habita o sensorial, onde ainda não há representação, ou, se há, é apenas um indício dela.
      
     Mas a mente humana, na sua complexidade, é profícua e carece de dar sentido às coisas.
      
      Diante do impacto, comecei a querer decifrar aquelas sensações, movido por um desconforto e um prazer um tanto sutis. O que queria aquele artista nos dizer? Parece que nos oferecia um espaço potencial para a nossa própria criação, convidando-nos a usufruir daquele estado onde nada ainda foi criado. Mas aí se instaura um paradoxo: uma criação falando do espaço onde ainda nada foi criado. Talvez nos revele o vazio como motor da criação ao nos colocar em contato com presença e ausência, peso e leveza, solidez e transparência, rarefação e matéria dura. Ao deparar com sua obra somos levados a criar pontes entre esses opostos, como que a preencher um vácuo. Instaura-se, concomitantemente, uma demanda por síntese.
       
      Comecei a pensar no que diferenciaria o objeto de arte de outros objetos. Uma das possibilidades é ele ter a condição de não utilitário. É algo apenas para ser observado, sentido, e não usado, pelo menos não no sentido corriqueiro. O objeto de arte nos leva a vivenciar aquele momento infantil onde olhamos para as coisas não pelo que nelas há de útil, mas de instigante, diferente, inusitado. Onde ainda não há saturação de sentidos.
       
      Ao caminhar pelo espaço da Pinacoteca me veio a lembrança do caminhar por um Shopping.
      
       Adoro Shoppings, ver a beleza das vitrines, das cores, as luzes. Mas o que diferencia um Shopping de um espaço como a Pinacoteca? Todos os Shoppings são parecidos e podemos estar em qualquer um deles, que a sensação é a mesma. Em São Paulo, Nova York, Londres ou Paris. Estamos diante do conhecido, espaços preenchidos com objetos decodificados.
       
      Já, na Pinacoteca, a presença do vazio entre as obras expostas, suas amplas salas, mostra-nos que ali não há saturação. É um lugar, onde o tempo todo se constrói e se descontrói. Exposições são montadas e desmontadas. Novos elementos re-significam o ambiente. Não há repetição do mesmo. É um espaço vivo, no sentido de que está sempre se transformando. A arquitetura da Pinacoteca, e a reforma realizada por Paulo Mendes da Rocha, juntamente com Eduardo Colonelli e Welliton Torres, já são uma arte em si. Nesse sentido, as artes plásticas e a arquitetura estão, ali, em pleno diálogo.
      
       Veio-me também a lembrança de um texto de Freud, onde ele relata que uma criança , para tolerar a ausência da mãe, amarra uma linha em um carretel e fica jogando-o para longe e trazendo-o para perto de si, simbolizando a ausência e o retorno dela , aliviando assim, a angústia da separação. Diante da criação de Waltercio, me senti como esse menino, tentando representar a sensação da ausência presente em seus objetos.
       
      Qualquer coisa que se diz não dá conta de  sua obra,  nem chega perto da experiência de estar diante dela. Saí de lá alimentado, inquieto, com vontade de traduzir em palavras o que estava sentindo. Waltercio nos leva a experimentar o inominável, o não cogniscível, aquele lugar onde já estivemos um dia, mas se perdeu com o processo de civilização.

Março/2013

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

CANÇÃO: Sentado à beira do caminho



                                                                            Imagem: reprodução


Minha versão rock & roll para a canção do Roberto.





                  

sábado, 27 de outubro de 2012

SATYRIANAS, O FILME


Luiz Pinheiro




                                               

" A minha arma é poesia/ e o meu verso é munição./ Tô na funçaõ do dia-a-dia./ Bala na agulha da emoção". (L.P.)

            Fui assistir ao filme “Satyrianas: 78hs em 78 minutos”, descompromissadamente e com curiosidade. Imaginei que fosse ver um simples registro documental do evento que ocorre todo ano na Pça Roosevelt e do qual já participei algumas vezes.

      É mais que isso. O filme é um misto de documentário e ficção, o que não constitui uma novidade nos tempos atuais, mas o interessante é que o modo de fazê-lo, o clima e a aparente anarquia quase trash do documentário, parece-se muito com o que ele retrata. Há ali um ideologia do que é fazer teatro, que também poderia ser fazer cinema, e por que não, eu arriscaria, até TV?

      O que se evidencia aos poucos é aquele jeito de fazer arte, onde o artista está na corda bamba, expondo-se ao risco o tempo todo, sendo coerente e paradoxal, abolindo certezas, superando limites, rompendo a possível linha divisória entre as diversas modalidades de manifestação artística, porém sem perder o fio da meada, a essência do que é a arte.

      O teatro de que se fala ali não é o espelho da sociedade, mas sim a sua recriação. É a realidade que se torna ficção, a ficção que constrói a realidade, que por sua vez interfere na ficção e abre um espaço intermediário, onde a possibilidade de pensamento e reflexão se instaura e o Novo pode eclodir. Como não pensar no espaço transicional de Winnicott, no terceiro analítico de Ogden, no pensamento em busca de pensadores a que se refere Bion? Talvez possamos falar da arte à procura de artistas.

      "Está tudo solto na plataforma do ar...Quem vai querer comprar banana?" Modernismo, Tropicália, Pós- modernismo, Oswald, Zé Celso, Nelson Rodrigues. Tudo ali numa salada tropical apetitosa, numa culinária refinadíssima, sem se posar de.

      Conheço a história dos Satyros desde sua instalação na Praça Roosevelt e acompanhei a luta do Ivam e do Rodolfo, aos quais se agregaram outros artistas, para fazer daquele espaço o que é hoje: o maior caldeirão criativo atualmente em vigor no Brasil. Artistas de todos os Estados vêm mostrar seu trabalho, trocar informações, expor suas inquietações e fazer parte dessa usina criativa, aberta dia e noite.

      O filme faz jus a tudo isso e vai além. Insere-se totalmente no que retrata a ponto de a gente se perguntar quem retrata quem, o que é fantasia, o que é realidade? E se isso realmente importa. Essa abertura para um questionamento mais profundo num clima descontraído é que o difere de outros documentários.

      Esse jogo lúdico rende muitos momentos engraçados, como a cena do Ivam, enebriado, mostrando para o público o seu humor, a sua densidade, a sua ousadia, a sua genialidade caótica, que só a alguns privilegiados até então, era dado conhecê-los.

      Ou momentos densos, como aquele em que a atriz Phedra de Córdoba, na pele de uma catatônica, com pequenos movimentos de mãos, nos brinda com um balé mágico, lírico e surreal, como que a nos transmitir, além da dor da personagem, o poder indomável e indiscutível de seu talento.

      Destaco também o ator Leandro Luna, impecável e totalmente convincente em seu personagem. 

      Aimar Labaki, Mario Bortolotto, Hugo Possolo, Raul Barreto, Rubens Ewald Filho, José Celso, e outros, trazem seus depoimentos sinceros e , à vezes, contundentes, alinhavados pelo de Roberto Alvim, que muito apropriadamente vai nos situando naquele carnaval sincrético, despojado, e dionisíaco, que se constrói e se desconstrói alternadamente, mostrando que os artistas naquela praça vieram para romper os alambrados da caretice nacional e dizer que estamos vivos, atentos e fortes, sem tempo de temer a morte.
      Parabéns aos diretores Daniel Gaggini, Fausto Noro e Otávio Pacheco, aos atores e à toda a equipe que participou dessa empreitada.