sábado, 10 de março de 2012

Me deu

Luiz Pinheiro


                                                      imagem: reprodução





Me deu de querer falar
Não calar minhas idéias
Debater sobre o aborto
Com beatas e atéias

Me deu de querer amar
Fazer justiça e ser idôneo
Combater a violência
Contra a camada de ozônio

Me deu de querer me dar
Levar o mundo a ser feliz
Vencer o trauma e o tédio
Cortar o mal pela raiz

Me deu de querer mudar
Dar de inventar coisas malucas
Derrubar as convenções
E abolir todas as burcas



domingo, 23 de outubro de 2011

Sentado à beira do caminho ( Roberto Carlos)




                                              
                                                

domingo, 11 de setembro de 2011

Vicente Celestino - Patativa

      Sempre gosto de cantar uma canção do Vicente Celestino. Quase não vejo releitura de seu trabalho. Cantei Patativa no show DECANTAR e cantarei outra no DECOMPOR dia 21 de setembro no Sesc Vila Mariana.

domingo, 28 de agosto de 2011

Contemporaneus Almodóvar music

Continuando a postagem de trabalho de amigos, trago hoje um vídeo de que gosto muito. É do meu amigo Laerte Késsimos. Apreciem.

                                                      

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

"DECOMPOR", DE LUIZ PINHEIRO, É UMA OBRA PRIMA

10/08/2011

Por Ivam Cabral, dramaturgo e ator d'Os Satyros


Imagem: Divulgação















Luiz Pinheiro é um nome importante da MPB. Parceiro de Hermelino Neder no excelente álbum "Cássia Secreta", de 2008, compôs para Vânia Bastos e Cássia Eller, no antológico "Cássia Eller", de 1992 – inclusive, é um dos autores de "Marginal", um dos carros chefes do disco.

Eu o conheci há uns 10 anos. Pi, como é chamado pelos amigos mais próximos, é autor, também ao lado de Hermelino, das canções de "Kaspar ou a Triste História do Pequeno Rei do Infinito Arrancado de sua Casca de Noz", espetáculo que Os Satyros produziu em 2004.

Pi apareceu na Praça Roosevelt como convidado de Vanessa Bumagny, que comemorava seu aniversário no Satyros. 12 de maio de 2001, uma noite inesquecível. Estava, ali, no Satyros Um – na época somente Espaço dos Satyros, já que nem sonhávamos com uma segunda sede –, um monte de gente bacana, um pessoal da música, uma área com a qual começávamos a flertar.

Naquele tempo, heróico mesmo, o Espaço dos Satyros oferecia, além dos espetáculos nos fins de semana, shows musicais. Era assim: Adriana Capparelli, às segundas e terças com um espetáculo lindo, "Pequeno Circo Íntimo", com canções de João Bosco e Aldir Blanc, dirigido pela Isabel Setti; e, às quartas e quintas, Letícia Coura, Beba Zanetini, Vitor da Trindade e eu apresentávamos "Letícia Coura canta Boris Vian".

Então a gente pensou que poderia criar uma relação mais profunda com a música. Tínhamos certeza de que estávamos vivendo um grande movimento artístico e que faríamos a diferença. Em nenhum momento – isso em 2001, 2002 – pensávamos que não conseguiríamos chegar lá. E até acho que chegamos. Várias ideias incríveis surgiram ali, nos bastidores dos Satyros. E muitas realizações também. Recebemos nomes bem bacanas em nosso palco: Zeca Baleiro, Chico César, Dante Ozetti, Rebeca Matta, Vitor Ramil, Vanessa da Mata, Moisés Santana, Waldir da Fonseca, Luiz Gayotto, Kléber Albuquerque, Nô Stopa, Helô Ribeiro, Ilana Volcov, André Sant'Ana e, até, Alaíde Costa.

Em diversas ocasiões, Luiz Pinheiro se apresentou no Satyros. Acho, até – e não gostaria que essa afirmação soasse, assim, pretensiosa demais – , que foi por causa do lado musical do Satyros que o Luiz começou a levar a sério a sua veia de intérprete. Sim, porque até em algum momento de sua biografia, Pi era apenas um compositor cult.

Muitas histórias foram vividas por nós nestes anos todos. Noites de bebedeiras e loucuras e devaneios artísticos mil. Um belo dia Pi aparece com uma canção que nos deixa boquiabertos. "As Impurezas da Rua sem Véu", composta por ele e Vanessa Bumagny chegava até nós como uma espécie de hino da Praça Roosevelt. Tempos depois, outra canção, "Phedra D. Córdoba", escrita por ele, Morena Rosa e Marcos Aspahan, em homenagem à nossa diva.

Não me esqueço. Satyrianas de 2009. A Praça Roosevelt é uma festa e o evento traz para a nossa praça um público enorme: 40 mil pessoas circularam pela nossa festa em 78 horas de atividades ininterruptas, das 18h de quinta à meia-noite de domingo. Na tenda CineMix é apresentado pela primeira vez o clip da canção. Ao final, uma ovação ao trabalho do Pi e ao poder de sedução da nossa diva automática indica que estamos diante de uma história poderosíssima protagonizada pelo trabalho daqueles artistas alternativos.

Há umas semanas o Rodolfo me conta que Pi esteve no Satyros e deixou um presente para mim, seu CD, "Decompor". O disco ainda fica na minha bolsa por uns dias até que eu consiga ouvi-lo. Foi então que o tempo parou ao meu redor; me certifico: tenho aos meus ouvidos uma obra-prima!

Pi, meu amigo, meu talentoso e grandioso amigo, revela, neste trabalho, o maior dos poderes: o do encanto. Faz com que a gente descubra um estado único, aquele, o da adoração, que só o melhor da arte pode tocar.

"Decompor" é um disco conceitual. E surge definitivo, requintado e elegante como a maioria de suas canções. Sem nenhuma concessão, um dos melhores álbuns do ano. Não só por revelar um compositor maduro, mas um intérprete em sua plenitude, nem tanto técnica, mas principalmente artística. E com um rigor! O que é o violão de Hermelino Neder em "A Cidade Não É Mais Moderna". Ou sua interpretação para "Brasa Dormida". Ou, ainda, a participação de Vanessa Bumagny em "Cinzas".

Estou maravilhado! E louco pra encontrar o Pi, dar um abraço apertado e dizer a ele que sou seu fã. Agradecer, também, por ter me reconhecido neste trabalho – sim, eu sabia de cor a maioria das canções!

Publicado originalmente em: terrasdecabral.zip.net







Nova canção




imagem:reprodução


Amigos, estou postando uma nova canção cujo arranjo ainda está em progress. Façam seus comentários.
Chama-se TRAFICANTE, inspirada nas pessoas que disseram estar viciadas no meu CD.


                          

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Nômade urbano

                                                                   imagem: reprodução                                                    

Luiz Pinheiro


Nômade Urbano
(O Rap do morador de rua)

Sou um nômade urbano,
nesta cidade insensata.
De manhã estou na Penha,
à tarde estou na Lapa.

Sou visto na Paulista,
na Gurgel ou na São João,
sob o sol a céu aberto
Ou à sombra do minhocão.

Nenhum albergue me prende.
Não há teoria que dê conta.
O social não me entende,
a violência me afronta.

É que não paro no ponto:
sou da rua, sou trecheiro.
Posso lhe causar espanto
com meu hábito e meu cheiro,

mas, aceitar  seu dinheiro
é uma via de mão dupla,
porque mata minha fome
e alivia sua culpa.

Relógio não me adianta
e tampouco me atrasa.
Para mim a pior idéia
é o retorno a qualquer casa.

Não vou partir nem chegar.
Nem quero aprender em lousas.
O que mais me dá prazer
é caminhar entre as coisas.

Nunca faço diferença
entre o público e o privado.
Você coloca limites,
eu rompo o alambrado.

Não tente me enquadrar
num projeto de inclusão.
Saiba que me excluir
é minha revolução.






      




sábado, 23 de julho de 2011

Um guia para se ouvir DECOMPOR

            Recebi com muito prazer a matéria que o Luiz Chagas fez sobre meu CD. Na verdade, ele me apresentou como músico e fez uma espécie de biografia minha, bastante generosa, mas não aprofundou a análise sobre as músicas em si e meu trabalho poético. Segundo ele, havia escrito muito mais, mas teve que se restringir ao espaço fornecido pela revista. Também gostei muito de ele ter inserido o Pi, que é como carinhosamente me chamam os meus amigos. Ainda não havia sido apresentado desse modo.

      Resolvi, então, complementar a matéria e fazer um roteiro para que vocês pudessem entender um pouco mais meu trabalho.

      Gostaria também que vocês pudessem comentá-lo. Esse retorno é importante para o artista.


                                                               foto: Georgeta Gonçalves
                                                        

Luiz Pinheiro

            Meu disco se inicia com a música DO SEU LADO. É uma maneira de eu cumprimentar os ouvintes e lhes dar uma boa vinda. Quero estar ao lado deles e os quero ao meu lado. Assim tudo fica muito melhor.

      Em seguida, apresento A CIDADE NÃO É MAIS MODERNA. Parto de um outro tempo, o modernismo, que desembocou na tropicalha e que trouxe paralelamente Milton Nascimento, com sua A CIDADE É MODERNA, e vou em busca do meu caminho que se dirige para o sol, trazendo toda a melancolia já digerida, dirigindo-a para uma outra dimensão, mais comtemporânea, já absorvida a estética bossanovista e roqueira da MPB, o sol. Digo que a criança cresceu e busca novos rumos, procurando sua própria identidade, após ter se misturado a todas as influências musicais, num momento em que o caldo entornou. Junto as sobras e faço a minha sopa.

      ÓDIO NO CAMARIM, sobre letra de Eraldo S. fala de minha inserção no universo artístico e todos os sentimentos que isso pode despertar. Amor e ódio, inveja, cobiça, como motor e entrave para a criação de uma obra musical ou artística. Inspirada no camarim de um teatro. Fala sobre as emoções que um ator ou músico sente minutos antes de entrar no palco - quase como um fio desencampado, prestes a dar curto - e da necessidade de ter por perto pessoas queridas e insuspeitas. Tem como pano de fundo a relação de um suposto casal.

      HAJA O QUE HOUVER: paixão à primeira vista, há muitos anos atrás, e uma promessa de gravá-la em disco um dia.
Me transporta para uma época que não vivi mas onde fui colher frutos, influenciado pela tropicália, que me apresentou os clássicos da MPB. Interessa-me muito o lado psicanalítico da letra. É um tratado sobre sado-masoquismo, dito de um modo tão simples e popular, corriqueiro e, ao mesmo tempo, poético. Fala de uma pessoa que para se sentir existindo precisa de castigos físicos e morais. Sem isso, ela simplesmente é nada. Mostra como um sintoma tem uma verdade escondida extremamente dolorosa e como tirar algum prazer desse destino, mesmo que às custas de muita angústia.

      EU SEMPRE: mais um personagem em busca de amor, vivendo suas frustrações e compensando-as com vivências de risco e perigo, em encontros furtivos pela solidão noturna da cidade. Letra da Vanessa Bumagny da qual me apropriei. É como se eu a tivesse feito. Diferenças à parte, lembra-me um pouco o universo chicobuarqueano transmutado em um olhar muito próprio dos que hoje estão fazendo canção.

      BRASA DORMIDA: Balada dos anos 80. Ouvi muito essa canção na voz do Marcelo, um jovem surfista de carreira meteória apadrinhado por Gil, Gal e Caetano. Minha versão é mais cool. Exalta o lado melancólico da canção. Interessante que foi uma época muito feliz da minha vida, quando minha casa era o ponto de encontro dos amigos e colocávamos a vitrola pra tocar, logo de manhã, ao levantarmos.

      DOR: Canção feita na época em que era estudante de medicina e mantinha paralelamente um sonho de ser compositor. Eu e meu parceiro ouvíamos muito Nana Caymmi e acho que ela tem uma certa influência sobre essa composição.

      SOMBRA NEGRA: Primeira música que fiz e classifiquei como brega. Como tem uma letra muito bem elaborada, aquele aspecto fica encoberto pelo literário. Meus amigos gostam muito e não a acham brega. Quando compus pensei na possibilidade de Bethânia cantar. Depois, com o arranjo do Valter Gomes ela foi ganhando uma alma roqueira.

      UMA ALMA QUE VOA: Letra do Boave, com melodia minha. Não é percebida pelos ouvintes em uma primeira audição, mas é uma das que mais gosto do disco. Sugiro que as pessoas ouçam com mais atenção para que possam usufruir dessa estética sonora. Tenho uma relação afetiva muito grande com o Rio e ela passeia pela paisagem carioca. Gosto muito do arranjo e das frases musicais do Valter na sua guitarra. É um dos arranjos que a banda mais gosta e toca com muito prazer. Tem um quê de oriental que remete à ascendência árabe do Wally Salomão, a quem o poema é dedicado.

      CINZAS: Mais uma letra da Vanessa da qual me apropriei. Aborda as questões existenciais de vida e morte. O que seremos depois. Cinzas têm dúvidas? Que são as cinzas, para onde vamos após a morte? O que é de tudo que foi vivido?

      POESIA: Minha posição estética diante da poesia. Influência direta do Concretismo.

      POÉTICO/PATÉTICO: Influência do Walter Franco e também do concretismo, onde tento reduzir o poema a apenas palavras que se combinam por similaridade e oposição. Não há verbo e quase não se formam sentenças. É a força da própria palavra, seu som e significados que dão o tom da coisa. É direto na veia, mas devagar, no suingue.

      VíCIO: Poderia-se dizer que é um poema com forte tinta psicanalítica, abordando o vício sem preconceitos e moralismo. Simplesmente pensando seus mecanismos, sua estrutura a partir de experiências próprias tanto no campo profissional como pessoal. Vício aqui não se restringe só às drogas, mas a tudo que se repete compulsivamente e faz com que a pessoa não tenha mais domínio de si, é tragada pela repetição e vai deixando de ser uma pessoa, para se tornar um vulto. Auto-boicote, supressão de si mesmo. Acho interessante que a profundidade do tema não tira o prazer de cantá-la alegremente.

      PHEDRA DE CÓRDOBA: Canção em homenagem à atriz Cubana Phedra de Còrdoba, atriz do grupo Satyros que sacudiu a cena cultural da pça Roosevelt. Foi nesse teatro que retomei minhas incursões musicais com o apoio do Rodolfo Varquez e do Ivam Cabral. Phedra no palco é algo inexplicável. Só vendo.

      AS IMPUREZAS DA RUA SEM VÉU: Uma declaração de amor à praça que serviu de laboratório para minhas experiências musicais e meu retorno à cena musical. É um yê yê yê,  o primeiro ritmo que, na minha juventude, fez-me interessar por música popular e me despertar o desejo de fazer canções. Tudo se junta nessa canção. Meus sonhos infantis e minhas realizações adultas. Ela foge um pouco do clima subsolo do disco, mas resolvi incluí-la porque o tema fala também de um teatro underground, de um grupo que ousou enfrentar todas as restrições a seu trabalho e se impôs.

Embora o disco contenha vários ritmos, podendo ter corrido o risco de cair numa salada amorfa, o viés poético e o universo temático, canções do subsolo, lhe dá a unidade necessária a uma obra artística no sentido mais puro da palavra.

Todo o resultado sonoro foi meticulosamente pensado por mim e Valter Gomes, um músico de enorme talento e que precisa ser descoberto.